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A eólica do futuro depende do planejamento do presente

Pretendo abordar o indispensável equilíbrio que temos que praticar para criar o futuro que queremos e, ao mesmo tempo, atuar em questões emergenciais do agora

Disrupção é a palavra do momento, utilizada cada vez mais num mundo de grandes transformações e avanço tecnológico. É muito interessante discutir o que nosso futuro trará, que mudanças serão necessárias e que mundo queremos deixar para nossos filhos e netos. Todo esse necessário debate, no entanto, não pode nos cegar para questões do presente que temos que mudar com agilidade. São estes os dois pontos que pretendo abordar neste artigo: o indispensável equilíbrio que temos que praticar para criar o futuro que queremos e, ao mesmo tempo, atuar em questões emergenciais do agora.

No que se refere ao futuro, sempre é bom lembrar que são muitas as ideias disruptivas que mudaram indústrias, desestabilizando modelos sólidos, mas que deixaram de evoluir. Embora associadas à tecnologia, disrupções podem acontecer em áreas mais “tradicionais”, como o setor elétrico, que está no caminho de uma profunda disrupção. Os fatores para que isso aconteça já são claros: renováveis como eólica e solar mostram notáveis taxas de crescimento oferecendo energia mais barata, com baíxissimo impacto ambiental e implantação rápida. Além disso, inovações tecnológicas de transmissão vão possibilitar uma descentralização e otimização da infraestrutura para as quais o setor precisa se preparar. Eólica e solar, antes coadjuvantes, estão passando a protagonistas e isso altera absolutamente tudo. Tal mudança tem potencial para um final positivo, mas o caminho até lá será árduo e de muita luta, por dois motivos. Primeiro porque nas disrupções há movimentos de oposição para manter inércia de sistemas que, embora sinalizem obsolescência, ainda beneficiam grupos. Segundo porque mudanças profundas exigem novas habilidades, pensamento criativo e evolução em categorias que podem estar engessadas em pensamentos ultrapassados.

O potencial de disrupção das renováveis de baixo impacto é amplo e tal discussão ainda vai evoluir muito. Para contribuir com tal discussão, em 2017 a ABEEólica produziu um vídeo resumindo todas as mudanças com potenciais disruptivos que estão sendo discutidas neste momento por todo o setor elétrico. É um assunto fascinante, imaginar como vai ser esse futuro, especialmente sabendo que a eólica terá um papel fundamental. Para as eólicas, por exemplo, existe um desafio muito importante e que tem sido enfrentado de forma muito eficiente pela indústria e pelo Operador Nacional do Sistema – ONS: trata-se da inserção das eólicas na matriz considerando sua variabilidade. Em nosso vídeo, o ONS conta, por exemplo, como tem lidado com a variabilidade natural da fonte de uma forma previsível e que não tem causado qualquer prejuízo ao sistema. Lembro, ainda, que as eólicas estão salvando o Nordeste da seca já há bastante tempo devido ao baixo volume dos reservatórios da região. O ONS nos reporta frequentemente os recordes que estamos atingindo: no dia 14 de setembro, por exemplo, atendemos 64% do Nordeste e tivemos um pico, no dia 10 de setembro, às 09h13, atendendo 84% da demanda da região. Isso mostra a força das eólicas, já consolidada como sendo de fundamental importância na matriz elétrica brasileira.

O programa de incentivo à cadeia produtiva, por exemplo, é considerado exemplo de política industrial de sucesso pelo retorno dado à sociedade em investimentos que passam dos US$ 70 bilhões e mais de 160 mil postos de trabalho. A eólica brasileira tem competitividade madura e já é a segunda fonte mais barata no Brasil, perdendo apenas para grandes hidrelétricas, que têm novos projetos com alto grau de complexidade devido a impactos ambientais. Sempre vale lembrar o fato de que as eólicas têm registrado dados animadores. No mês de agosto de 2017, por exemplo, a geração de energia eólica foi responsável por 10% de energia da matriz elétrica brasileira, com 5.825 MWmédios, de acordo com a CCEE. Foi a primeira vez que a fonte atingiu os dois dígitos de representação na matriz. O outro dado relevante é que o Brasil, em 2017, subiu mais uma posição e assumiu o sétimo lugar entre os países com maior geração de energia eólica no mundo, ultrapassando o Canadá, que caiu para a oitava posição. Os dados são do “Boletim de Energia Eólica Brasil e Mundo – Base 2016” produzido pelo Ministério e Minas e Energia (MME). Os boletins mensais da CCEE também têm trazido dados importantes: a produção de energia eólica em operação comercial no Sistema Interligado Nacional – SIN, entre janeiro e agosto de 2017, foi 25,7% superior à geração no mesmo período do ano passado, por exemplo.

Os dados acima mostram, portanto, que a eólica já é uma fonte consolidada e que terá papel de destaque neste caminho sem volta das disrupções. Um outro ponto importante nessa  discussão de futuro é que geração distribuída e microgeração vão trazer um notável desafio para transmissão e distribuição, especialmente no que se refere a financiamento e modelo de negócio. Quanto mais consumidores têm sua própria fonte de energia, menos contribuem em tarifas para manutenção e expansão das redes. E quando os consumidores produzem mais do que consomem, passam a injetar energia no sistema, recebendo por esta geração. O fluxo se inverte. Nosso sistema de transmissão/distribuição, com marco regulatório desatualizado e modelo de negócio e de financiamento que não consideram ainda estes fatores, precisa se preparar para esta revolução.

A disrupção das energias renováveis fica mais profunda considerando inovações tais como avanço do armazenamento distribuído, queda rápida dos custos de medidores inteligentes e os veículos elétricos, que vão exigir ainda mais inteligência das redes. O World Economic Forum publicou no início de março de 2017 o report “Power to the People: How the Sharing Economy Will Transform the Electricity Industry”, com importantes questões sobre o tema e conclui que a adoção de novas tecnologias de rede nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) poderia trazer mais de US$ 2,4 trilhões de criação de valor para a sociedade e para a indústria nos próximos 10 anos. O relatório conclui, ainda, que “para os consumidores, a implantação de tecnologias de ponta permitirá que os clientes tomem o centro do sistema elétrico”.

Nossa preocupação com o futuro, no entanto, deve estar equilibrada com um grande número de questões que merecem nossa atenção no curto e médio prazo. O setor elétrico brasileiro está passando por um momento importante, em que profissionais de alto padrão se empenham para fazer rearticulações e mudanças necessárias. A realidade, no entanto, se impõe com uma rapidez muito grande. Reservatórios baixos e mudanças climáticas estão causando um grande impacto na matriz brasileira, altamente dependende da energia das grandes hidrelétricas. No segundo semestre de 2017, os brasileiros assistiram a uma escalada das tarifas devido ao acionamento da bandeira vermelha e uso das térmicas, sem que os governos tivessem se preocupado em promover campanhas de racionalização do uso de energia, por exemplo. Há pouco menos de um ano, os dirigentes falavam em sobra de energia. O Brasil segue no mesmo pêndulo perigoso de sempre, indo de uma situação de falar de “sobra” para uma realidade de se ver com “falta” de energia e isso acontece em pouco tempo. No fundo, esse movimento pendular de extremos mostra que temos falhas em nossos modelos e principalmente no planejamento. Estas são questões importantes que precisam ser enfrentadas para que o medo de um novo apagão não volte a nos assustar. E neste ponto não estamos falando de um futuro disruptivo, mas de um presente já preocupante e que exige nossa atenção.

Considerando o cenário acima, está claro que será necessário completo redesenho criativo de nosso paradigma regulatório e da forma de operar o sistema, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. No Brasil, a eólica tem se desenvolvido com eficiência e sem subsídios significativos porque, entre outros motivos, o País tem um dos melhores ventos do mundo e desenvolveu uma competente cadeia nacional. Isso certamente nos coloca em posição privilegiada nesse caminho de mudanças, que exige a condução de líderes inovadores, criativos e que saibam enxergar o futuro desta disrupção a favor do planeta, sem se descuidar das mudanças de planejamento necessárias para o agora.

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