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Mercados emergentes – incluindo o Brasil – continuarão a impulsionar a transição energética global

Pela primeira vez, países em desenvolvimento adicionaram mais capacidade limpa do que fóssil e lideram a transição energética. Brasil é o destaque.

No ano passado haviam indícios irrefutáveis ​​de que a transição energética estaria sendo liderada por mercados emergentes e que o Brasil, pioneiro em leilões com longo histórico de adições de energia limpa e políticas energéticas favoráveis, continuaria a desempenhar um papel de liderança. Lançado em novembro de 2018, a pesquisa anual Climatescope da BloombergNEF revelou que não apenas a maior parte da nova potência zero-carbono do mundo foi construída nos países em desenvolvimento em 2017, mas que pela primeira vez esses países adicionaram mais capacidade de energia limpa do que fóssil. O total de 114GW[1] de capacidade zero carbono foi adicionado nos mercados emergentes em comparação com aproximadamente 63GW nos países mais ricos. Esse total representa quase dois terços dos 186GW da capacidade total de energia nova adicionada nos mercados emergentes no ano passado.

Embora esses números representem um marco histórico em outras partes do mundo, eles não são tão surpreendentes no Brasil, onde a energia limpa já ultrapassa os combustíveis fósseis no mercado de energia há muito tempo. Muitas das características que permitiram o florescimento das energias renováveis ​​em todo o mundo – leilões competitivos de energia, investimento estrangeiro direto consistente, um robusto banco de desenvolvimento nacional – estão presentes no Brasil há algum tempo. Olhando para 2020 e muito além, essas políticas, juntamente com o implacável declínio nos custos das energias renováveis ​​globalmente, estabelecem as bases para o aumento da energia eólica e solar no Brasil.

Leilões, abertura, investimento

O estudo anual Climatescope da BloombergNEF avaliou 103 nações em desenvolvimento e classificou-as por níveis de investimento em energia limpa, reformas políticas que apoiam a energia limpa, abertura ao investimento internacional e dezenas de outros fatores. O Brasil ficou em quarto lugar na pesquisa, enquanto outros três países da América Latina ficaram entre os 10 melhores do mundo. O desempenho do Brasil é ainda mais impressionante considerando a recente queda de investimento em energia limpa e o cancelamento de leilões. Então, o que explica o alto desempenho?

A atratividade do Brasil para o desenvolvimento de energia limpa e a escala atual no mercado de renováveis ​​decorrem das decisões tomadas há mais de uma década, além de excelentes recursos eólicos e solares. Buscando diversificar sua matriz de eletricidade, melhorar a segurança do suprimento e aproveitar a energia limpa para impulsionar o crescimento econômico, o Brasil começou a construir uma estrutura de políticas energéticas favoráveis às renováveis no início dos anos 2000. Inicialmente, incluía-se um esquema de feed-in tariffs (PROINFA) e, mais tarde, um programa de leilões regulares para contratos de geração de energia limpa. Os leilões, mais do que qualquer outro mecanismo de política pública, são responsáveis ​​pela liderança em energia limpa do Brasil – e da América Latina – premiando os desenvolvedores com receita a longo prazo, proporcionando aos investidores maior segurança no mercado e produzindo alguns dos projetos renováveis mais competitivos do mundo.

Os leilões são hoje um fator crítico para o crescimento de renováveis ​​globalmente. A BloombergNEF registrou 57,7GW de nova capacidade contratada através de leilões em 32 países apenas em 2017, igual a todas as instalações solares e eólicas no mundo em 2010. À medida que os mercados mais importantes migram em direção aos mecanismos de leilão, 2018 é outro ano recorde, uma vez que todas as ofertas sejam contabilizadas. Na China, a mudança completa dos mecanismos de contratação para leilões, por sua vez, elevará ainda mais os níveis em 2019.

O Brasil realizou seu primeiro leilão com participação de energia eólica bem-sucedido em 2009 e desde então já adicionou mais de 24,8GW de energia renovável nos leilões, apesar de uma pausa de 20 meses entre maio de 2016 e dezembro de 2017. Em termos de investimento, o Brasil atraiu quase US $57 bilhões em financiamento de novos ativos de energia limpa em 2010-17, de longe a maior quantidade na América Latina no período.

Os leilões também têm sido a principal via de atração de capital estrangeiro, liderada principalmente pelas grandes empresas de eletricidade europeias, como a Enel, da Itália, e a EDF, da França. Quase 90% do investimento total feito pelas empresas européias a nível internacional ao longo da última década foi para a América Latina, liderado pelo Brasil, Chile e, mais recentemente, pelo México. Em grande parte graças aos leilões, a América Latina atraiu o maior e mais estável fluxo de investimento de financiadores estrangeiros de qualquer região, chegando a US $3 bilhões por ano desde 2010.

O papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para impulsionar o crescimento de energia limpa do Brasil não pode ser subestimado. Seus incentivos de dívida, na forma de empréstimos em moeda local a taxas abaixo do mercado e prazos generosos, mostraram-se críticos, estimulando o desenvolvimento de uma cadeia de valor eólica doméstica e limitando o dano durante o período de desaceleração econômica. O BNDES financiou 70% de todos os projetos contratados nos leilões do Brasil em 2012-15. De 2008 a 2017, o BNDES sozinho forneceu quase 27 bilhões de dólares para projetos de energia limpa, tornando-se o maior financiador de energia limpa do mundo. Mais recentemente, o banco começou a aumentar as taxas e a os padrões de empréstimos, criando uma maior concorrência de outros credores, particularmente no Nordeste. Apesar disso, o BNDES continuará com um papel fundamental no Brasil em energia limpa.

A queda dos preços se mostra consistente, apesar dos ventos contrários

Em 2018, o setor de energia limpa do Brasil se recuperou após a grave recessão econômica do país. O país realizou dois leilões de sucesso com 3,3GW, o que representou toda a capacidade contratada nos leilões na América Latina. Enquanto isso, Argentina, Chile, México e Colômbia adiaram os leilões devido a incertezas políticas ou de mercado.

Mais importante ainda, o declínio acentuado dos custos de energia limpa que começou no início da década continua. Os preços nos dois leilões do Brasil em 2018 acompanharam as tendências globais de quedas de custos, com uma concorrência forte entre os desenvolvedores indicando demanda reprimida e resultando na menor média de preços de leilão solares e eólicos já registrados no país. No 27º leilão de energia do Brasil, realizado em abril, os parques fotovoltáicos lideraram com 1GW a uma média de 118 reais/MWh (US $35/MWh), um recorde para o Brasil. O leilão também estabeleceu um preço médio recorde de 67,7 reais/MWh para projetos eólicos.

Quatro meses depois no leilão de agosto, o Brasil registrou o segundo menor preço médio para a tecnologia eólica já registrado, tanto em reais quanto em dólares. O 28º leilão de energia (A-6) registrou um preço médio para a mesma de 90,45 reais/MWh (US $22,3 / MWh), 60% abaixo do teto estabelecido pelo regulador, em 48 projetos (1,25GW). A queda do real frente ao dólar em 2018 devido a uma perspectiva econômica fraca e uma eleição presidencial tumultuada ajudaram a pressionar os preços dos leilões a subir 34% em reais e 10% em dólares em relação ao leilão anterior. Uma mudança regulatória que aumentou o risco geral dos projetos eólicos faz os preços baixos ainda mais impressionantes.

Os resultados demonstram que o crescimento das renováveis ​​no Brasil é resiliente aos ventos contrários macroeconômicos e às políticas energéticas imprevisíveis. No entanto, a expansão rápida da carteira de projetos – e os requisitos de capital que eles criam – introduz novos riscos. Como em outras partes do mundo, os lances mais baixos nos leilões do Brasil neste ano caíram abaixo de nossas estimativas do custo nivelado da eletricidade (LCOE) para energia eólica e solar no país, após serem ajustados por fatores como inflação, diferentes datas de comissionamento, duração de contratos e venda ao mercado livre.

A concorrência excessiva pode ter impulsionado os preços abaixo do que seria economicamente viável. Isso cria a possibilidade de projetos serem cancelados, desperdiçando recursos e prejudicando a cadeia de suprimentos. Por outro lado, é muito improvável que as quedas de preços exponenciais parem por aí. Essa queda é afetada pelas tendências a longo prazo nas áreas de inovação tecnológica, economias de escala, e manufatura.

Os desenvolvedores parecem estar apostando que estas tendências continuarão e enquanto não há certeza de que eles estarão certos, o momentum parece forte. Os custos de módulos solares, por exemplo, caíram 84% desde 2010 e a BloombergNEF prevê que eles vão cair em aproximadamente um terço até 2023.

O amadurecimento do setor de renováveis, o seu alcance internacional crescente e o uso de leilões continuam a comprimir o range LCOE em todos os mercados. Independentemente do resultado de projetos individuais, os baixos lances em leilão refletem os declínios nos custos de energia eólica e solar, e o fato de que os desenvolvedores esperam aproveitar a curva de custos e entregar de forma lucrativa na data futura do comissionamento. Esta tendência tem sido mais evidente no lado solar, onde os desenvolvedores podem aproveitar a tecnologia de energia mais competitiva e modular que existem hoje. Com uma indústria eólica robusta já estabelecida no Brasil, a modelagem de longo prazo da BloombergNEF indica que os fundamentos econômicos necessários para o crescimento rápido da energia solar já estão estabelecidos.

Uma perspectiva ensolarada (e com bons ventos)

Como a segunda maior economia das Américas, o Brasil vê sua demanda anual de eletricidade crescer 31%, atingindo 782TWh até 2040, uma vez que o crescimento econômico retome como previsto. Quais tecnologias serão implantadas para atender isso?

No curto prazo, prevê-se que o gás natural e a capacidade hídrica cresçam e claramente mantenham a importância a longo prazo da rede. No entanto, a energia eólica e a solar acabam por assumir um papel preponderante, uma vez que a competitividade em termos de custo é acentuada pelos excepcionais recursos naturais do Brasil. De fato, a energia eólica onshore já é altamente competitiva em termos de custos com todas as outras fontes de energia, apoiada por fatores de capacidade invejáveis ​​que rotineiramente chegam a 50%. A energia solar em larga escala também se tornou recentemente uma fonte de geração de custos competitivos, impulsionada por reduções de CAPEX que refletem a convergência com o benchmark global. Nosso estudo sugere que uma crescente contribuição da energia solar de pequena e larga escala nos próximos cinco anos prepara o cenário para um crescimento considerável nos anos 2020.

A competitividade dos custos para a construção de projetos eólicos e solares significa que uma média de 5GW de novas energias renováveis ​​deverá ser acrescentada por ano até 2040, mais do que duplicando a contribuição das energias renováveis ​​não hidroelétricas para quase metade de toda a capacidade instalada. Já há sinais de renováveis ​​não-hidrelétricos assumindo a liderança. No primeiro semestre de 2018, praticamente a totalidade (99%) dos 1,4GW de novas capacidades adicionadas à rede do Brasil veio de energia eólica, solar ou pequenas hidrelétricas. Com a geração de energia do país crescendo 1% em relação ao mesmo período do ano passado, observamos um aumento de 18% na energia eólica e um aumento de 28 vezes na geração de energia fotovoltaica.

Em termos de capacidade, os parques solares alcançaram 1,4GW no meio do ano e estimamos que outros 1,6GW serão comissionados no Brasil até 2020. Esperamos que o mercado se fortaleça em 2021 com 1,8GW de usinas fotovoltaicas que ganharam contratos nos últimos leilões. Nesse mesmo período, o Brasil adicionará 2,9GW de energia eólica ao portfólio existente de mais de 13GW.

O setor de energia limpa do Brasil emergiu da recessão bem posicionado para florescer à medida que o crescimento econômico retorna. E tendo estabelecido as bases de políticas energéticas mais cedo do que a maioria das outras nações em apoio às energias renováveis, o país deve se beneficiar com o amadurecimento do setor. Supondo que o apoio do novo governo permaneça forte e estável, o Brasil deve continuar a desempenhar um papel de liderança na transição energética global.

[1] Incluindo nuclear e hidro

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