Energias renováveis e uma oportunidade para a transformação da sociedade brasileira

A eólica tem a capacidade de modificar não apenas as matrizes elétricas e energéticas, ela pode transformar também a sociedade de forma mais profunda

Gostaria de aproveitar este espaço do Cenários Eólica, anuário da Brasil Energia que fica em circulação por um período maior do que uma publicação mensal, por exemplo, para falar de um assunto que considero crucial e que acredito que deva estar muito presente em 2021, assim como foi o caso em 2020. Refiro-me à transformação energética e seus efeitos para a sociedade, assim como a responsabilidade que o setor de energias renováveis tem para que ela ocorra com cada vez mais velocidade e eficiência.

Quem se dedica ao setor elétrico já convive com o termo “transição energética” há um bom tempo. Mais recentemente, começamos também a discutir a “transformação energética”. Há uma diferença entre eles, algo sutil para quem não é do setor, mas fundamental: na transição, discute-se como sair de um cenário A, com uma matriz pouco ou nada renovável, para um momento B, em que energias renováveis passam a ser responsáveis pela grande parte da matriz, inclusive com a possibilidade de já vislumbrarmos a viabilidade de termos matrizes 100% renováveis em muitos lugares. Quando falamos de “transformação energética”, o conceito é mais amplo e envolve, por exemplo, todas as mudanças e tecnologias que se desenvolvem junto com as renováveis, para atender e permitir seu crescimento, além das consequências na sociedade. O que quero, neste artigo, é discorrer e me aprofundar um pouco mais sobre esse último conceito.

Falar de transição energética, no caso do Brasil, é fácil. Já temos uma matriz elétrica e energética com participação de renováveis acima da média mundial. No caso da elétrica, por exemplo, temos 83% de renováveis, enquanto a média global é de cerca de 25%. Na matriz energética, temos 46% e a média mundial está ao redor dos 15%. E seremos cada vez mais renováveis. Temos um dos melhores ventos do mundo para geração de energia eólica em terra, em alguns anos teremos eólicas offshore, nosso potencial solar é enorme, a biomassa cresce com solidez e temos a possibilidade de aproveitar o gás natural do pré-sal para gerar energia.

Nosso desafio não é, portanto, gerenciar escassez de recursos naturais limpos, como é o caso de tantos países que precisaram investir bilhões em políticas de desenvolvimento de renováveis. Nosso desafio é gerenciar sua abundância para produção de energia, tirar de cada um deles o melhor possível, protegendo a natureza e trazendo retornos sociais e econômicos para a sociedade. Nossa responsabilidade, quando miramos o palco mundial das discussões sobre aquecimento global, é gigantesca. E eu estou falando apenas do recorte das fontes de energia. Se falarmos de florestas e de outros recursos naturais, a responsabilidade brasileira é ainda maior.

E é exatamente por termos essa abundância que podemos entender o processo de transição energética como uma oportunidade para que isso signifique uma transformação energética. Em primeiro lugar, nossa matriz, já altamente renovável, conforme for se expandindo, vai comportar a participação crescente de renováveis, mudando o mix de recursos naturais que utilizamos para gerar energia. O peso das hidrelétricas, por exemplo, nosso grande recurso renovável, tende a ir diminuindo conforme crescem eólica, solar, biomassa e, num futuro bem próximo, parques híbridos, novas tecnologias de armazenamento, eólica offshore, gás natural e hidrogênio. No caso da matriz energética, o uso de biocombustíveis vai fazendo esse caminho de renovabilidade, assim como a tendência de eletrificação de parte da frota.

Em segundo lugar é que consigo vislumbrar a verdadeira potencialidade e oportunidade da transformação, que é o fato de o investimento nos recursos naturais, de forma responsável, gerar desenvolvimento econômico e social por meio da distribuição de renda, da inclusão e da diminuição das desigualdades econômicas e sociais. É preciso dar esse pulo de raciocínio e ação: não basta gerar energia renovável que não emita CO2, é preciso que essa energia impacte positivamente a vida das pessoas. Aí começamos a falar de uma real transformação energética, da forma como eu a compreendo.

No caso da eólica, já enxergamos muito bem isso. Parques eólicos chegam à regiões remotas do Brasil, especialmente no nordeste, impactando positivamente comunidades por meio de, por exemplo, empregos diretos e indiretos e geração de renda com os arrendamentos de terras dos pequenos proprietários, que seguem com suas criações de animais ou plantações, já que apenas uma pequena parcela da área é utilizada para colocação dos aerogeradores. Há também impactos de aumento de arrecadação de impostos que, com adequado gerenciamento público, podem significar melhorias para o município. O desenvolvimento tecnológico que chega com as renováveis também significa um novo caminho de atuação profissional.

Além disso, contribuímos para a regularização de terras de pequenos proprietários que jamais tiveram acesso ou condições de cuidar disso. Esse é um efeito positivo pouco discutido, mas ao ser obrigado a arrendar pequenos espaços de terras em áreas que necessariamente devem estar regularizadas, o setor eólico deve cuidar dessa regularização e contribuiu indiretamente para que pequenos donos de terra, especialmente no interior do nordeste, tivessem pela primeira vez seu certificado de propriedade em mão.

Avalio que o setor eólico tem feito um bom trabalho neste sentido, mas sei que podemos e devemos fazer cada vez mais, pensar em novas formas de impactar positivamente a sociedade, melhorar processos e ousar ir além. É justamente esse  “ir além” que tem me motivado constantemente nos últimos tempos, especialmente com a chegada da pandemia e com as discussões que venho participando, em âmbito global, sobre a importância dos investimentos em energias renováveis para a retomada econômica.

Esta nova energia tem a capacidade de modificar não apenas as matrizes elétricas e energéticas, o que já é algo espetacular e imprescindível; ela pode transformar também a sociedade de forma mais profunda, diminuindo desigualdades e contribuindo para que tenhamos um futuro melhor para deixar para as próximas gerações. É aí que entendo que a “transformação energética” alcança seu potencial pleno, quando, por meio de nossos esforços individuais e coletivos, ela puder ser também uma energia da transformação.

Vivemos uma oportunidade histórica que não podemos deixar passar: fazer com que as novas energias representem mais do que a origem dos elétrons que geramos para consumo é algo que depende de nossa vontade e de um comprometimento que vai além dos resultados financeiros das companhias. Trata-se de um questionamento muito profundo como espécie: como podemos gastar melhor nossa energia de vida trabalhando pelo coletivo e por uma transformação real? Acredito que o ano de 2021 será um período crucial nesse processo. Já temos uma luz no final do túnel em relação à pandemia e precisamos nos recuperar priorizando as energias que fazem bem para o planeta e que poderão garantir um futuro mais sustentável para as próximas gerações.

 

Elbia Gannoum é Presidente Executiva da ABEEólica – Associação Brasileira de Energia Eólica. Economista, Doutora pela Universidade Federal de Santa Catarina. Em sua carreira, acumulou experiências como membro da Diretoria da CCEE – Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (de junho de 2006 a Abril de 2011), Economista-Chefe do Ministério de Minas e Energia (2003-2006), Coordenadora de Política Institucional do Ministério da Fazenda (2001-2002), Assessora de assuntos econômicos no Ministério de Minas e Energia (2001), Assessora na ANEEL (2000-2001) e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (1998-2000). Acadêmica, com mais de 50 artigos publicados, Elbia é especialista em Regulação e Mercados de Energia Elétrica, tendo atuado nessa área desde 1998. À frente da ABEEólica, tem atuado para o fortalecimento e crescimento sustentável da energia eólica, que já chega a representar 10% da geração nacional, com uma cadeia de produção 80% nacionalizada e mais de 12GW de capacidade instalada em cerca de 500 parques eólicos. A energia eólica deve ser a segunda fonte de energia para o País até 2020. Elbia é reconhecidamente uma voz formadora de opinião no setor elétrico, com presença constante em veículos de imprensa da grande mídia e especializados, além de publicar artigos com frequência. Em 2014 foi eleita pela revista inglesa Recharges – Renewable Thought Leader Club, como uma das personalidades mais influentes em energias renováveis no cenário global.